Relatório do órgão de inteligência financeira aponta transferências para empresa do pré-candidato ao governo da Bahia após eleições de 2022. Ex-prefeito confirma valores e diz que serviços foram legais.
O ex-prefeito de Salvador e atual pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil), recebeu um total de R$ 3,5 milhões de instituições financeiras que foram alvo de liquidação pelo Banco Central (BC) no ano passado. A informação consta em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) divulgado nesta quarta-feira (11) pelo jornal O Globo.
De acordo com o documento, os repasses partiram do Banco Master e da gestora de recursos Reag e foram feitos para a A&M Consultoria Ltda. , empresa da qual o político é sócio ao lado da esposa. Os pagamentos ocorreram entre dezembro de 2022 e maio de 2024, período posterior à eleição estadual da qual ACM Neto participou.
Os valores recebidos
Segundo o levantamento do Coaf, os montantes repassados foram:
· Banco Master: R$ 1,7 milhão.
· Gestora Reag: R$ 1,8 milhão.
O órgão de inteligência financeira, vinculado ao Banco Central, afirmou no relatório ter identificado movimentações consideradas “elevadas” e incompatíveis com a capacidade financeira declarada pela empresa. A A&M Consultoria foi aberta em 28 de dezembro de 2022, poucos meses após o segundo turno das eleições, com capital social inicial de apenas R$ 2 mil. Oficialmente, a empresa atua na prestação de serviços de consultoria em gestão empresarial.
O que diz ACM Neto
Procurado, ACM Neto confirmou os recebimentos e afirmou que todos os valores são decorrentes de contratos de prestação de serviços de consultoria firmados de forma legal. Em nota, o ex-prefeito explicou que constituiu a empresa após deixar o cargo público para prestar assessoria a diferentes clientes sobre o cenário político e econômico nacional.
“Isso sempre ocorreu com contratos formais, com o devido recolhimento de impostos e trabalhos de consultoria efetivamente executados, notadamente relacionados à análise da agenda político-econômica nacional”, declarou ACM Neto.
O pré-candidato acrescentou que, na época da contratação, não havia qualquer fato público que desabonasse as instituições contratantes e que os valores recebidos são compatíveis com outros trabalhos de consultoria que realizou no mesmo período. Ele também negou qualquer relação entre os serviços prestados e as investigações que culminaram na liquidação das empresas.
O caso Master e Reag
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e da gestora Reag em novembro de 2025. A medida extrema foi justificada pelo BC como necessária devido a uma “grave crise de liquidez”, ao “comprometimento significativo da situação econômico-financeira” e a “graves violações às normas” do sistema financeiro.
A quebra das instituições, que também envolveu o Banco Master de Investimento e o Banco Letsbank, desencadeou a Operação Compliance Zero da Polícia Federal. As investigações apuram suspeitas de fraudes bilionárias, como a emissão de títulos de crédito falsos e o uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos. O caso gerou tensões institucionais, envolvendo debates entre o Supremo Tribunal Federal (STF), o Tribunal de Contas da União (TCU) e o próprio Banco Central sobre a supervisão do sistema financeiro.








